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Ucrânia na Grande Estratégia dos EUA (V)

Ucrânia na Grande Estratégia dos EUA (V)

O ponto de partida deste estudo foi a pergunta sobre a ambivalência do governo Biden diante da guerra da Ucrânia e, em todos os seus momentos, a ideia norteadora da análise foi a de que a chave para a compreensão do comportamento dos Estados Unidos no conflito jazia no padrão historicamente construído de relacionamento entre…

POR SEBASTIÃO VELASCO E CRUZ

Como indicado na introdução, o ponto de partida deste estudo* foi a pergunta sobre a ambivalência do governo Biden diante da guerra da Ucrânia e, em todos os seus momentos, a ideia norteadora da análise foi a de que a chave para a compreensão do comportamento dos Estados Unidos no conflito jazia no padrão historicamente construído de relacionamento entre vencedor e vencido, Estados Unidos e Rússia, no Pós-Guerra Fria. Antes de concluir o percurso devo considerar o papel atribuído à Ucrânia neste processo.

4.1. Política de governo e política de Estado.

Nesta perspectiva, a primeira coisa a fazer é qualificar a pergunta inicial. Política do governo Biden diante da guerra? O que a rápida reconstituição histórica empreendida neste artigo demonstra é que a política para a Rússia – e por extensão para a Ucrânia – não é deste ou daquele governo. O que temos à nossa frente é a expressão de uma grande estratégia, uma política de Estado. Naturalmente, o Estado é uma abstração vazia, se separado dos sucessivos governos que o encarnam, cujas políticas variam de acordo com suas orientações ideológicas respectivas e os vínculos que mantêm com diferentes segmentos da sociedade, mas também – no caso da política exterior, sobretudo – das situações cambiantes com que são confrontados. Neste sentido, cabe falar de políticas de governo, sem dúvida, mas elas surgem como momentos de um “todo diferenciado sucessivo”, como os acordes de uma melodia, cuja qualidade é dada pelo contexto musical precedente, o qual se modifica retroativamente pela emergência do novo acorde[1].

Ao assumir a presidência, Biden já encontrou a Ucrânia em situação de guerra larvar intestina, e a relação dos Estados Unidos com a Rússia, gravemente deteriorada. No quadro desenhado pelas duas “decisões fatídicas” antes examinadas, os pontos de atrito que levaram a tal situação foram vários, mas, entre todos, a disputa em torno da Ucrânia teve um papel especial. Não só pelos laços socioeconômicos e culturais que vinculam historicamente Ucrânia e Rússia, mas pelo significado da primeira na geopolítica mundial.

Sobre este ponto, melhor do que falar em nome próprio é ouvir um observador-participante, cuja palavra, além de instruída, é das mais autorizadas.

The appearance of an independent Ukrainian state […] represented a vital geopolitical setback for the Russian state. […], (it) meant the loss of a potentially rich industrial and agricultural economy and of 52 million people ethnically and religiously sufficiently close to the Russians to make Russia into a truly large and confident imperial state. Ukraine’s independence also deprived Russia of its dominant position on the Black Sea, where Odessa had served as Russia’s vital gateway to trade with the Mediterranean and the world beyond. The loss of Ukraine was geopolitically pivotal, for it drastically limited Russia’s geostrategic options[2].

… if Moscow regains control over Ukraine, with its 52 million people and major resources as well as its access to the Black Sea, Russia automatically again regains the wherewithal to become a powerful imperial state, spanning Europe and Asia. Ukraine’s loss of independence would have immediate consequences for Central Europe, transforming Poland into the geopolitical pivot on the eastern frontier of a united Europe[3].

Ex-conselheiro de Segurança Nacional de Jimmy Carter, com raízes profundas na ala democrata do establishment da política exterior americana, Brzezinski não era um observador participante qualquer. Já o vimos em ação no debate sobre a expansão da OTAN, durante o qual sobressaiu-se como a voz externa mais influente na defesa da tese vencedora. Presença importante na vida política da Polônia, seu país de origem (chegou a ser cogitado como candidato à sucessão de Lech Walesa, em 1995), e tendo liderado, nos Estados Unidos, a montagem de organismos especializados na advocacia de políticas voltadas para a região (fundou o U.S-Poland Action Committee e o American-Ukranian Advisory Committee no prestigioso Center for Strategic and International Studies), Brzezinski mantinha relações estreitas também com a elite política da Ucrânia, interlocutor que foi de Leonid Kravchuk e Leonid Kuchma, seus dois primeiros presidentes como país independente[4].

Na visão de Brzezinski, a história imperial da Rússia fora momentaneamente interrompida, mas não terminada, com a implosão da União Soviética. “Within the Russian foreign policy establishment, diz ele, (composed largely of former Soviet officials), there still thrives a deeply ingrained desire for a special Eurasian role, one that would consequently entail the subordination to Moscow of the newly independent post-Soviet states”[5]. Para que a Rússia se reorganizasse como um país normal, uma democracia de mercado, integrada à Europa – e, portanto, no sistema de segurança centrado na Aliança Atlântica –, seria imprescindível deixar para trás tal veleidade, o que só aconteceria com o decidido apoio ocidental à independência desses países.

Não é outra a ideia-força a guiar, desde a última década do século passado, a política dos Estados Unidos para a Ucrânia.

4.2 De Clinton a Biden. A política dos EUA para a Ucrânia e a crise internacional.

Política de longo prazo, informada por uma visão estratégica precisa sobre o papel da Ucrânia no jogo de poder mundial. Já aludi a duas expressões dela em outra parte deste artigo – quando me referi à informação dada em 2014 pela secretária assistente de Estado dos EUA, Victoria Nuland, sobre o montante despendido pelos Estados Unidos em apoio a grupos e organizações qualificados como democráticos, e à avaliação do ex-embaixador americano em Moscou Michael McFaul, sobre o papel das instituições ocidentais na chamada Revolução Laranja, em 2004. Cabe agora mostrar como esta política foi plasmada ao longo do tempo.

Assistant Secretary of State Victoria Nuland at a Ukrainia… | Flickr

(Arquivo) A então secretária assistente de Estado dos EUA, Victoria Nuland, na Base do Serviço do Estado Ucraniano de Guarda da Fronteira (SBGS), em Kiev, em 8 out. 2014 (Crédito: Embaixada americana em Kiev)

Vencido o período inicial de negligência, quando a política externa dos Estados Unidos para a região foi dominada pelo imperativo de evitar o fantasma da proliferação nuclear, poucos meses depois de inaugurado, a viagem de dois dias a Kiev do então embaixador-geral, Strobe Talbott, sinalizava a sensibilidade maior do governo Clinton às condições e anseios da Ucrânia. Ela foi imediatamente seguida por outras iniciativas diplomáticas destinadas a marcar a importância atribuída ao país pela nova administração em Washington. Assim, no começo de junho, o secretário da Defesa, Les Aspin, chegava à Ucrânia, levando duas propostas: a elaboração de uma carta sobre as relações bilaterais, expressando o interesse nacional dos Estados Unidos na independência da Ucrânia; e uma sugestão sobre como lidar com a questão do estoque de armas nucleares em solo ucraniano[6]. Este foi o tema principal da conversa mantida por Clinton com o presidente Leonid Kravchuk, em sua rápida passagem por Kiev, em 12 de janeiro de 1994, quando fez o convite para que a Ucrânia participasse do Programa Parceria para a Paz, da OTAN. Dois dias depois eles, voltariam a se encontrar em Moscou para assinarem com Yeltsin a Declaração Trilateral, que definia a Ucrânia como país não nuclear – em troca da promessa de compensações financeiras e garantias de segurança[7].

Esta posição foi confirmada pelo Parlamento ucraniano, ao aprovar, em 5 de dezembro de 1994, projeto que declarava a Ucrânia um país livre de armas nucleares – no mesmo dia, o presidente Leonid Kuchma assinava, com os líderes do Cazaquistão e da Bielorrússia, o chamado Memorandum de Budapeste, pelo qual a Rússia, o Reino Unido e os Estados Unidos se comprometiam a não ameaçar, ou fazer uso de força militar, ou de coerção econômica, contra os mencionados países, como preâmbulo à adesão dos mesmos ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear.

A primeira fase no relacionamento entre os Estados Unidos e a Ucrânia é coroada pela aprovação da Carta sobre a Parceria Distinta entre a Organização do Tratado do Atlântico Norte e a Ucrânia, na cúpula de Madri, em 1997. Sobre este documento – que dava satisfação (parcial, por não ter força de lei) às expectativas da Ucrânia na área da segurança por sua participação em operações de paz nos Bálcãs e por não se opor ao primeiro ciclo de expansão da OTAN[8] – vale a pena citar alguns pontos da contribuição feita contemporaneamente por um observador qualificado, para um dossiê sobre o tema.

1. The NATO-Ukraine Charter will inevitably be seen by some in Russia and particularly [by] the military, as a further measure of NATO’s encirclement of Russia.

2. Its signing at the Madrid Summit will similarly be seen as evidence of NATO’s ‘triumphalism’ in ‘winning the Cold War’.

….

8. The conduct of NATO/Ukrainian exercises on Ukrainian territory, and in the Black Sea, will need very sensitive handling vis-à-vis Russia.

11. Having recently signed an Agreement with Russia (the Black Sea Fleet / Sevastophol issue having been finessed), it is not unreasonable to see this Charter with NATO as an act of ‘political balancing’! I, however, would tend to see a different balance. I suspect that, in practice, the Charter will do little to strengthen Ukraine’s security; and could do much to weaken NATO’s coherence and cohesion[9].

Expectativas ucranianas. Convém salientar este aspecto, porque a política de atração exercida pelos Estados Unidos seria impensável, se não convergisse com um movimento interno à sociedade e a política ucranianas. Com efeito, partilhando longo passado comum; profundamente integrada à Rússia em sua cultura, economia e infraestrutura energética; tendo um conjunto de questões contenciosas a resolver com antiga potência ora imersa em crise convulsiva, a elite estatal ucraniana, maciçamente formada por egressos do PCUS (85% dos congressistas eleitos em 1990, além do presidente Kravchuk e de seu sucessor imediato, Kuchma[10]) cedo abraçou o projeto de afirmar sua independência por meio da integração ao universo das instituições ocidentais (em particular, a OTAN e a União Europeia). Mas a intensidade e o ritmo do processo de integração dividiam opiniões na elite política e, mais ainda, no conjunto da sociedade.

Decisiva para a identidade nacional em formação, a questão dos laços com a Rússia e com a Europa Ocidental esteve no âmago das duas crises políticas maiores que abalaram a Ucrânia no Pós-Guerra Fria. Não por acaso, ambas representaram também pontos de inflexão no relacionamento da Ucrânia com os Estados Unidos.

O envolvimento destes na primeira delas já foi objeto de rápido comentário em outra parte do artigo. Cabe agora observar que, previsivelmente, o governo constituído por Viktor Yushchenko – candidato de oposição declarado vitorioso no pleito que se seguiu à nulidade da eleição presidencial de novembro de 2004, ganhada fraudulentamente, segundo as denúncias, pelo situacionista Yanukovich – contou inicialmente com apoio declarado do governo George W. Bush.

File:President George W. Bush and President Viktor Yushchenko of the  Ukraine Shake Hands.jpg - Wikimedia Commons

(Arquivo) O então presidente americano, George W. Bush, e seu homólogo ucraniano à época, Viktor Yushchenko, após entrevista coletiva conjunta, em Kiev, em 4 jan. 2008 (Crédito: Casa Branca/ Wikimedia Commons/National Archives Catalog)

Inicialmente, porque, pouco tempo depois de formado, seu gabinete entrou em crise e foi dissolvido, para se recompor ironicamente com a nomeação de Yanukovich ao cargo de primeiro-ministro. Durante o curto e desconfortável período de coabitação, as relações com o governo W. Bush ficaram estremecidas. Mas voltaram a bons termos quando este político, que representava a opinião favorável à preservação dos laços de amizade com a Rússia, foi removido.

A Carta de Parceria Estratégica Estados Unidos-Ucrânia, assinada em 19 de dezembro de 2008 – 8 meses e meio após o veto alemão à abertura do processo de adesão da Geórgia e da Ucrânia na OTAN, durante a cúpula de Bucareste, e quatro meses depois da intervenção militar russa na Geórgia – expressa com eloquência esta mudança. Reiterando princípios gerais que vinham há muito norteando as relações entre os dois países – “apoio à soberania, independência, integridade territorial e inviolabilidade das fronteiras” – e a importância da Ucrânia como país democrático capaz de se autodefender para a paz e a prosperidade da Europa, a Carta prevê um programa de cooperação com vistas ao fortalecimento da candidatura da Ucrânia à OTAN. Neste contexto, a Carta antecipa a estruturação de um plano para aumentar a interoperabilidade e a coordenação de capacidades entre a OTAN e a Ucrânia, inclusive através de treinamento e equipamentos melhores para as Forças Armadas ucranianas[11].

Não podemos examinar o desenvolvimento das ações previstas nesse texto, mas o depoimento prestado pela secretária assistente adjunta de Defesa para Rússia, Ucrânia e Eurásia, Evelyn N. Farkas, em audiência no Comitê de Relações Exteriores do Senado dos Estados Unidos, é suficientemente ilustrativo para os propósitos do presente artigo.

We continue to realize the gains from investments that we have made over the last 20 years in the International Military Education and Training program […] as officers trained in U.S. military institutions have assumed position of greater responsibility in Ukraine’s Armed Forces. We saw this manifested in the great professionalism and restraint exercised by the Ukrainian military during the demonstrations on the Maidan when the Ukrainian military refused to use force against peaceful demonstrators and in their courage and restrain in the face of overwhelming force in Crimea[12].

O objeto da audiência era a ação dos Estados Unidos na segunda grande crise política a abalar a Ucrânia na sua curta existência como país independente. Entrementes, o governo resultante da “Revolução Laranja” terminara inteiramente desmoralizado, e seu presidente fora derrotado pelo ex-primeiro-ministro Yanukovich, na tentativa de reeleição que obteve pouco mais do que 5% dos votos.

Reversão frustrante para os condutores da política exterior dos Estados Unidos e de seus aliados. Não que o governo Yanukovich tenha representado uma ruptura política radical. É certo, ele reafirmou a condição da Ucrânia como país “não bloco”, mas manteve a orientação pró-ocidental da diplomacia ucraniana, cujo objetivo maior, naquele momento, era a conclusão de um acordo de livre-comércio e associação com a União Europeia. Foi o fracasso dessas negociações e a decisão de Yanukovich de aceitar o polpudo empréstimo oferecido pela Rússia, sem condicionalidades, que precipitou a Revolta de Maidan.

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(Arquivo) Manifestantes na Praça da Independência (Maidan), em Kiev, em 26 jan. 2014 (Crédito na foto)

Não posso me deter neste episódio, mas devo fazer ainda assim um ligeiro reparo. Falar de Maidan como uma onda de protesto pacíficos é destorcer a história de um movimento que envolveu a ocupação de prédios públicos (inclusive um depósito de munições do Exército) e a morte de 100 pessoas por disparos de atiradores de elite postados em local controlado por integrantes do movimento[13]; distorção não menor é falar da violência que vem da Crimeia para se referir a um referendo que se desenrolou sem encontrar nenhuma resistência e terminou sem deixar nenhum saldo de vítimas.

Mas a parcialidade do depoimento não surpreende, porque nos acontecimentos de fevereiro 2014 os Estados Unidos foram tudo menos um terceiro neutro e desinteressado. Evidência disso foi a atuação ostensiva de figuras proeminentes do Estado americano, como o senador John McCain e a indefectível Victoria Nuland, na incitação do desafio às autoridades constituídas, e no pronto reconhecimento de um governo provisório, logo depois que o Parlamento ucraniano foi tomado de assalto pela turba inconformada com a conclusão de um acordo que poderia pôr um fim negociado à crise política[14].

Esta saída foi bloqueada e, desde então, não se encontrou nenhuma saída. Logo depois de rasgado o acordo mediado pela França, Polônia e Alemanha, a Crimeia declarou a sua independência e, na sequência, o movimento separatista estendeu-se ao Donbass, aqui assumindo formas de luta violenta. Com isso (e com a anexação subsequente da Crimeia pela Rússia), a guerra tomou o lugar da crise política.

Neste contexto, o confronto entre Estados Unidos e Rússia se agrava sobremaneira, e seu envolvimento com a Ucrânia ganha outra dimensão.

Os números constantes do quadro a seguir falam por si mesmos.

ApudElias Yousif, “U.S. Military Assistance to Ukraine,” Stimson Center, January 26, 2022.

Segundo estudo preparado por equipe do Congressional Research Service, entre 2014 e março de 2022, os Estados Unidos destinaram mais de 4 bilhões de dólares, através dos Departamentos de Estado e da Defesa, “para ajudar a Ucrânia a preservar sua integridade territorial, assegurar suas fronteiras e melhorar a interoperabilidade com a OTAN”[15]. Parte significativa desses recursos terá sido aplicada em programas de treinamento militar, finalidade para o qual foi criado, em 2015, o Centro de Treinamento de Combate de Yavoriv, parte do Grupo de Treinamento Multinacional Conjunto-Ucrânia, na região de Lviv, próximo da fronteira com a Polônia[16]. Não consegui encontrar informação precisa, mas o autor do estudo do Stimson Center citado acima estima que, entre os anos fiscais de 2015 e 2019, pelo menos 10.629 militares ucranianos receberam treinamento nestes programas[17].

A informação quantitativa, porém, não diz tudo e talvez esconda o principal. Os Estados Unidos responderam à anexação da Crimeia e ao apoio russo aos separatistas do Donbass com sanções e ajuda militar, como vimos. Resta esclarecer que os primeiros passos nessa direção foram relativamente moderados – apesar dos argumentos em contrário provindos do próprio campo democrata[18], o governo Obama resistiu até o fim ao fornecimento de armas letais à Ucrânia – e que a política contra a Rússia tornou-se crescentemente agressiva, em boa medida por iniciativas oriundas do Congresso (Support for the Sovereignty, Integrity, Democracy, and Economic Stability of Ukraine Act of 2014; Ukraine Freedom Support Act of 2014; Countering Russian Influence in Europe and Eurasia Act of 2017; Crimea Annexation Non-recognition Act, aprovado pela Câmara de Representantes, em março de 2019, com a esmagadora maioria de 427 votos, contra 1). Convém ainda acrescentar que o agravamento das relações com a Rússia intensificou-se no governo Trump, que se valeu de autoridade legislativa para liberar o envio de armas letais à Ucrânia, ao tempo em que ampliava o número e o alcance dos exercícios militares na região.

A crise internacional tornou-se aguda no último trimestre de 2021, com a decisão de Putin de concentrar tropas na Bielorrússia, mas as tensões entre a Rússia e a OTAN já vinham escalando há tempos, como indica o significativo aumento dos incidentes militares entre elas no período precedente[19].

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Nesta altura, a mudança no caráter da crise na Ucrânia estava prestes a se completar. Entre 2013 e 2014, assistimos a uma crise política doméstica, com forte e óbvio componente internacional. A anexação da Crimeia e a eclosão dos movimentos separatistas convertem a crise política em guerra, mas não alteram fundamentalmente a natureza das forças em conflito: ele continuava opondo o governo ucraniano – agora depurado dos partidários de uma política pró-russa – e os rebeldes separatistas, que já não se reconheciam como pertencentes à comunidade política que aquele governo pretendia representar.

Tratava-se ainda de uma guerra civil, e assim foi tratada nas sucessivas rodadas de negociações internacionais com vistas à paz: Gênova (2014), Minsk I (2014), Minsk II (2015). Este fato estampado nas cláusulas mais importantes desses acordos, como

4. Dialogue on (1) modalities of local elections in accordance with Ukrainian legislation and (2) the future status of “certain areas” in Donetsk and Luhansk and specification of the areas in eastern Ukraine to which this status applies

9. Restoration of full Ukrainian control over its border with Russia, beginning from the first day after local elections and ending after a comprehensive political settlement, following the introduction of a new constitution and permanent legislation on the special status of certain areas in Donetsk and Luhansk.

11. Constitutional reform, including on decentralization, and permanent legislation on the special status of certain areas in Donetsk and Luhansk, in agreement with representatives of nongovernment-controlled areas[20].

Como sabemos, este acordo não foi implementado, apesar das sucessivas fórmulas idealizadas pela diplomacia dos países mediadores para operacionalizar suas previsões de forma aceitável ao conjunto das partes signatárias. Plano Morel (embaixador francês): aceito por França, Alemanha e Rússia, rejeitado pela Ucrânia; Iniciativa Sajdik (diplomata austríaco): aprovado por Alemanha, Rússia e França, rejeitado pela Ucrânia; Fórmula Steinmeier (Frank-Walter Steinmeir, ex-ministro das Relações Exteriores e depois presidente da Alemanha): acolhida pela Alemanha, pela França e pela Rússia, mas não pela Ucrânia. A última tentativa foi a de fatiar o acordo, escalonando suas obrigações. Ela estava em andamento quando sobreveio a crise internacional e transformou inteiramente a configuração do conflito[21].

Não há como considerar em detalhes as razões de tamanho fracasso. Mas uma das principais terá sido a mudança nada sutil na definição ontológica do conflito que se produz concomitantemente. Não na visão deste ou daquele analista, mas como fato institucional, formalizado em lei. Com efeito, ao mesmo tempo em que o governo Poroshenko reiterava a contragosto o seu compromisso com o Acordo de Minsk 2, a Rada (Parlamento ucraniano) aprovava, em janeiro de 2018, a lei 7163 que inviabilizava formalmente sua aplicação, ao definir a ação militar no Leste da Ucrânia como operação destinada a repelir a agressão russa, ao impor a lei marcial na região conflagrada e ao estabelecer que o controle de fronteiras seria transferido ao governo ucraniano antes da realização das eleições locais, ao contrário do que estipulava o artigo 9 do Minsk-2[22].

Na verdade, a qualificação derrogatória do conflito foi consagrada muito antes. Eleito em maio de 2014 com a promessa de estabelecer a paz expeditivamente, Poroshenko pouco depois adota o discurso da corrente extremista do nacionalismo ucraniano, que rejeita a diversidade étnica, cultural e linguística do país, em nome de uma identidade nacional a construir, profundamente excludente. Nessa perspectiva, a possibilidade de uma saída negociada para o conflito desaparece, porque – negada a existência do interlocutor legítimo – não há com quem negociar.

Nicolai Petro, autor do magnifico e pungente livro em que me apoio nesta parte do estudo, esclarece a premissa estratégica a informar esta posição e indica o seu papel na produção da tragédia.

It was believed that this strategy of non-negotiation, which was supported by the United States and its European allies, would eventually force Russia to leave Donbass.²⁰ Isolated from its main supporter, the rebels would then have no choice but to capitulate on Kiev’s terms. If this strategy had worked in Donbass, then it could presumably have been used to gain back Crimea as well. But, instead of surrendering in the face of Western sanctions, Russia increased its aid to the region and raised the stakes by offering Donbass residents Russian passports. By May 2021, more than a third of Donbass residents had acquired Russian passports[23].

Profecia que se autorrealiza. Definido o conflito como internacional e a Ucrânia como vítima de invasão russa (isto já em 2014), não há o que discutir, muito menos barganhar. O território perdido tem que ser reconquistado, e quem discordar disso não merece ser chamado de cidadão, é um “quinta-coluna” a serviço do agressor.

Decorrência direta de uma política fundada no conceito da nação como totalidade homogênea em contexto histórico que o repele, tal postura tem raízes na história ucraniana. Mas ela não teria finalmente se imposto sem o concurso dos Estados Unidos e aliados, que acolheram os seus pressupostos no traçado de seus programas de ação, em seus textos legais, e na atividade propagandista que desenvolvem.

O impasse já estava criado quando Biden assume Presidência dos Estados Unidos. É sobre este pano de fundo que ele vai operar quando a crise internacional atingir o seu ápice.


Notas

[1] Devo a analogia à leitura muito antiga de um texto de Oszlak e O’Donnell, os quais se inspiraram, por sua vez, na obra de Milik Capek, The Philosophical Impact of Contemporary Physics. Cf. Oszlak, Oscar; O’Donnell, Guillermo. Estado y políticas estatales en América Latina. Hacia una estrategia de investigación, Buenos Aires, Documento CEDES/G.E. CLACSO/N. 4, 1976, p. 17.

[2] Brzezinski, Zbigniew. The Grand Chessboard. American Primacy and its Geostrategic Imperatives. Basic Books, 1997, p. 92.

[3] Id., ibid., p. 46.

[4] Cf. Vaïsse, Justin; Brzezinski, ZbigniewAmerica’s Grand Strategist. Cambridge, Mss./London, Harvard University Press, 2008, pp. 379 e segs.

[5] Brzezinski, Z., op. cit., p. 51.

[6] McCurdy, Dave. The Evolving U.S. Policy Toward Ukraine. SAIS Review, Vol. 14, No. 1, 1994, pp. 153-169 (pp. 166-67).

[7] Rodriguez, Robert G.. US-Ukranian Relations in the Post-Soviet Era, European Scientific Journal, May 2016, Special edition, pp. 383-426 (p. 388).

[8] Kuzio, Taras. Ukraine and NATO: The Evolving Strategic Partnership, Journal of Strategic Studies, publicação on -line, 24/1/2008.

[9] Eberle, Admiral Sir James. “Comments”, in NATO-Ukraine Charter: First Act or Curtain Call? BITS Briefing Note 97.1, 07/1997. Participaram do dossiê preparado pelo Berlin Information Center for Transatlantic Security especialistas dos Estados Unidos, da Alemanha, do Reino Unido e da Ucrânia, assim como da Rússia.

[10] Holowaty, Serhiy. Ukraine: One Year of Independence, in Russia, Ukraine, and the U.S. Response. Queenstown, MD: The Aspen Institute, 1993), 56. Apud, McCurdy, Dave, op. cit., p. 154.

[11] Cf. United States-Ukraine Charter on Strategic Partnership. Bureau of European and Eurasian Affairs, Washington, D.C., 19/12/2008. Available at: https://ua.usembassy.gov/our-relationship/u-s-ukraine-charter-strategic-partnership/#:~:text=This%20Charter%20is%20based%20on,foundation%20of%20our%20bilateral%20relations.

[12] Farkas, Evelyn N. “Prepared Statement of Dr. Evelyn Farkas”, in Ukraine—Countering Russian Intervention and Supporting a Democratic State, U.S. Senate, Committee on Foreign Relations, Tuesday, May 6, 2014, p. 19.

[13] Cf Katchanovskim, Ivan. The Maidan Massacre Trial and Investigation Revelations: Implications for the Ukraine-Russia War and Relations, Russian Politics, 8 (2023), pp. 191-205. Para uma avaliação mais geral do papel da violência durante a crise, Cf. Volodymir Ischenko, Far Right Participation in the Ukrainian Maidan Protests: an Attempt of Systematic Estimation, European Politics & Society, 2016, pp. 1-20.

[14] Examinei o episódio, com ênfase no comportamento dos atores internacionais envolvidos, em “Ser ou Não ser? Ucrânia, Rússia e os dilemas da política externa alemã”, in Velasco e Cruz, Sebastião C.. Linhas Cruzadas. Sobre as relações entre os Estados Unidos e a Alemanha. São Paulo, Editora UNESP, 2016, pp. 97-109.

[15] Arabia, Christina L; Bowen, Andrew S.; Welt, Cory. U.S. Security Assistance to Ukraine, CRS Updated March 28, 2022.

[16] Cf. Welt, Cory. “Ukraine: Background, Conflict with Russia, and U.S. Policy”, CRS Updated April 29, 2020, p. 40.

[17] Yousif, Elias. U.S. Military Assistance to Ukraine, Stimson Center, January 26, 2022.

[18] Como, por exemplo, no relatório publicado conjuntamente por três instituições importantes, assinado por expoentes da comunidade americana de política exterior. Cf. Daalder, Ivo; Flournoy, Michele; Herbst, John; Lodal, Jan; Pifer, Steven; Stavridis; James; Talbott, Strobe; Wald, Charles, Preserving Ukraine’s Independence, Resisting Russian Aggression: What the United States and NATO Must Do. Atlantic Council, Brookings Institution, The Chicago Council on Global Affairs, Feb. 2015.

[19] Cf. Clem, Ralph; Finch, Ray. Crowded Skies and Turbulent Seas: Assessing the full scope of NATO-Russian military incidents, War on the Rocks, 19/8/2021. Sonne, Paul; Hudson, John. Amid tensions with Russia, White House scrutinizes military exercises in Europe, The Washington Post, 19/11/2021.

[20] Cf. Welt, Cory, op. cit., p. 19.

[21] Cf. Petro, Nicolai N. The Tragedy of Ukraine. What Classical Tragedy Can Teach about Conflict Resolution. Berlin/Boston, Walter Gruyter, 2023, p. 228.

[22] Id. Ibid., p. 226.

[23] Id. Ibid., p. 230.


*Artigo publicado originalmente no Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU). O texto é o quinto da série O Quadrilátero da Crise. Confira também:

O Quadrilátero da crise. A guerra na Ucrânia e o governo Biden (I)

A Quadratura do Círculo. A Política dos Estados Unidos para a Rússia no Pós-Guerra Fria (II)

Escolhas Fatídicas. Supremacia Nuclear (III)

Escolhas Fatídicas 2. Expansão da OTAN (IV)

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