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06/04/2025
Uma análise crítica e propostas alternativas ao Novo ArcabouçoFiscal. Por Jose Luiz de Cerqueira Cesar – Engenheiro.
Foi comunicado nesta semana, pelo Ministro da Fazenda, Fernando Haddad (em30 de março), a primeiro grande decisão e proposta macroeconômica do terceirogoverno Lula com relação ao Novo Arcabouço Fiscal, um dos pilares damacroeconomia brasileira, propondo-se substituir a Emenda Constitucional n.º95, também conhecida como a Emenda Constitucional do Teto dos GastosPúblicos.O Novo Arcabouço Fiscal proposto não será a única regra fiscal vigente no Brasil,caso seja aprovado junto ao Congresso Nacional.Há inúmeras outras leis, regulações e parâmetros que regem a gestão dascontas públicas no Brasil. A política fiscal passará a ser constituída basicamentepelo seguinte Regime Fiscal:a) A Regra de Ouro, composta por dispositivos legais que vedam que osingressos financeiros oriundos do endividamento (operações de crédito)sejam superiores às despesas de capital (investimentos, inversõesfinanceiras e amortização da dívida).;b) As Metas do Resultado Primário, que se referem ao resultado entrereceitas e despesas do Governo.c) O Novo Arcabouço Fiscal e;d) A Lei da Responsabilidade Fiscal, que determina formas de prevenção ecorreção de situações que comprometem o equilíbrio das contas públicas.A proposta de um Novo Arcabouço Fiscal, recém-apresentada, poderia serresumida nas seguintes regras:Compromisso de trajetória do primário até 2026, com meta e banda devariação tolerável.O atual teto de gastos passa a ter banda com crescimento real da despesaprimária entre 0,6% a 2,5% a.a. (mecanismo anticíclico), com FUNDEB e pisoda enfermagem excluídos dos limites (regras constitucionais já existentes).Crescimento anual dentro da faixa de crescimento da despesa limitado a 70%da variação da receita primária dos últimos 12 meses.Resultado primário acima do teto da banda permite a utilização do excedentepara investimentos. Foram definidas as metas de resultado primário para os anosde 2024, 2025 e 2026 que serão, respectivamente, 0%, 0,5% e 1% do PIB —com uma banda de 0,25% do PIB para cima e para baixo.Se os esforços do Governo de aumento de receitas e redução de despesasresultarem em primário abaixo da banda, obriga a redução do crescimento dedespesas para 50% do crescimento da receita no exercício seguinte.Investimentos possuem piso.A princípio, o Novo Arcabouço Fiscal tem um viés extremamente conservador,na medida em que mantém a economia engessada e presa à camisa de forçada atual política monetária, pois a ênfase foi a busca predominante pelo superávitprimário em detrimento de uma política mais ousada de investimentos estruturaise reestruturantes – que a reconstrução nacional exige.A impressão é que a Equipe Econômica do Governo acredita que, ao seenquadrar em uma política fiscal conservadora, irá ganhar credibilidade daentidade “mercado” e, portanto, os investimentos privados ocorrerãogradativamente ao longo dos próximos anos.Uma promessa abortada que já assistimos um sem-número de vezes: aqueletipo de “Ponte para o Futuro” que nos leva ao pior tipo de passado possível.Vale lembrar que as empresas privadas estão endividadas principalmente emfunção da elevada taxa de juros e com baixa capacidade de investimento.Elas estão muito mais preocupadas com a recomposição de caixa, solucionardívidas e repor margens de lucro, do que qualquer outra coisa.Existe um paradigma conservador um tanto quanto inquestionado em relação àquestão do resultado primário da economia, sendo que não se admite trabalharcom déficit público, conceito que virou palavrão para o Deus mercado.Tanto o déficit como o superávit primário podem ser saudáveis para a economia,dependendo da aplicabilidade que se faz dos recursos financeiros.Um superávit às custas de cortes em serviços e investimentos básicos em saúde,educação, cultura, redução de programas sociais e populares podem trazerdanos à toda sociedade.Da mesma forma, um superávit primário às custas da elevação de taxas etributos pode prejudicar o crescimento econômico e gerar endividamento dasempresas, como também um superávit gerado pelo crescimento econômico eaumento da arrecadação é o que se persegue como cenário ideal.No caso do déficit público, estritamente voltado para investimentos públicos emprojetos bem avaliados, pode ser saudável para a economia a médio e longoprazo, na medida em que estes investimentos gerarão resultados, aumento daarrecadação de impostos, geração de empregos e renda, qualidade de vida –que por sua vez também reduz outros custos públicos – da saúde a segurançapública.De outra forma, déficit público causado por distribuição de emendas ocultas apolíticos, elevação de salários para determinados setores e categoriasespecíficas dos servidores públicos como parcelas de políticos, militares ejudiciário, gastos com propaganda do governo, podem gerar uma situação dedescontrole total da economia.As novas regras do arcabouço fiscal defendem um piso de investimento, masmuito aquém dos valores necessários diante das metas e pendências básicas emínimas, históricas e ante os desafios atuais deste já avançado Século XXI, queestão aí para serem solucionadas, como um programa mínimo – e Agenda Globaljá muito bem delineada, ao menos, até 2030, a qual necessita ser executada emcaráter emergencial conforme algumas das diretrizes abaixo:a) Metas assumidas e que necessitam ser executadas na década de açãoda Agenda 2030,b) Compromissos da Agenda de Mudanças Climáticas, investimentos natransição energética, investimentos na preservação e potencializaçãosocioambiental de Biomas, em particular a Amazônia, e as oportunidadesda Bioeconomia que estão colocadas para o país;c) Recuperação do setor industrial e sua modernização;d) As demandas de infraestrutura (saneamento básico, eletricidade,rodovias, ferrovias, portos etc.,);e) A conquista de autossuficiência nos setores fármacos e fertilizantes como objetivo de desonerar a nossa balança comercial;f) A necessidade de multiplicar investimentos em áreas críticas comoagricultura familiar para assegurar a segurança alimentar nutricional eestabilização de preços com formação de estoques reguladores;g) Um grande impulso de investimentos para a aceleração em educação ecultura (e toda socioeconomia criativa), ciência, tecnologia e inovaçõesdiversas;h) Uma reposição e em alguns casos uma aceleração de investimentos nasáreas sociais (educação, cultura, saúde, saneamento, transporte públicoe habitação).A observação estratégica, que necessita ser feita, é que a políticamacroeconômica não se faz de forma isolada, pois a macroeconomia possuivários pilares orgânicos que se comunicam, podendo ser resumidos nas 5políticas gerais: fiscais, monetárias, cambiais, comerciais e de rendas.Anunciar um Novo Arcabouço de Política Fiscal sem o sincronismo ecoordenação com as demais políticas e possíveis mecanismos de nova gestãomacroeconômica, e principalmente a política monetária de monopólioatualmente do Banco Central, aponta para um fracasso anunciado e desencontroentre as metas e os objetivos na sequência de sua aplicação.Ao se isolar uma ou outra política, elegendo-as como prioritárias, a fiscal e amonetária, em detrimento das demais, já significa a manifestação de umasubserviência de partida.A macroeconomia é dedicada ao estudo, medição e observação de umaeconomia regional ou nacional como um todo, contemplando a análise emodelagem de dados e indicadores econômicos agregados de um país ou deuma região, incluindo a análise do comportamento histórico destes indicadores,as interações e vasos comunicantes de transmissão e incidência recíproca, ealtamente dinâmica, entre eles.Desta forma, a macroeconomia se dedica à compreensão de fenômenos queafetam a economia como um todo e, portanto, o funcionamento do país ou regiãoonde se aplica seu estudo.Os temas básicos da macroeconomia giram sobre um imenso universo devariáveis e conceitos que vão além da taxa de juros: inflação, comportamento depreços, flutuação, demanda, produto, emprego, dívida pública versus PIB,crescimento versus estabilidade, classificação de riscos, superávits primários enominais, câmbio, políticas cíclicas, anticíclicas, expansão, contração,exportação, importação, renda, consumo, investimentos, gastos, tributos,câmbio, salários e distribuição de renda.Todos estes indicadores e fatores são passíveis de serem ajustados e em funçãodos vasos comunicantes existentes entre as políticas macroeconômicasdependendo de como se ajusta estes indicadores podem provocar resultadospositivos ou negativos na economia.O Brasil possui uma economia marcada pela aplicação de políticasmacroeconômicas desbalanceadas em vários governos que se sucederam.Os processos inflacionários por décadas e altas taxas de juros, com a queda dopoder de compra da moeda, acarretou distorções na renda, principalmente, nasclasses mais empobrecidas ou excluídas, gerando assim consequências comoa diminuição do consumo, fome, desemprego, causando uma elevação do nívelde pobreza nesses setores, que ainda são a ampla maioria de nossa população.Considerando o atual cenário mundial e local de crise, as crises cíclicassucessivas, é fato inconteste a necessidade de o Estado planejar, intervir melhorno intuito de defender a soberania e a segurança, inclusive da saúde e alimentar,promovendo o bem-estar da população, controlando a inflação e promovendo ageração do crescimento econômico, do emprego, da renda e da qualidade devida.Sendo assim, isso só é possível, devido à utilização desses instrumentos daspolíticas macroeconômicas de uma forma plena, holística, com uma sintonia finado conjunto de aplicação das políticas de forma global e harmônica, ou bemcoordenada, entre si.A delegação para o Banco Central da missão, mandato ou tarefa de sintonizaras políticas macroeconômicas baseadas simples ou prioritariamente, quase queexclusivamente, na política monetária, demonstrou- se errática – e danosa.É errático também se aplicar o termo Banco Central Independente, sendoconceito extraído dos postulados da política neoliberal, pois de fato seatribuirmos a Independência do Banco Central, estaríamos falando de um quartopoder independente dos demais republicanos e constitucionais: legislativo,executivo e judiciário.O termo correto seria a autonomia operacional e não estratégica, para conduçãooperacional restrita à política monetária, mas não às demais políticasmacroeconômicas, sob pena de conferir ao Banco Central poderes e mandatosde outras áreas e ministérios do Governo Federal.Este aspecto estratégico é o ponto de partida para se efetuar a crítica ao pacotedo Novo Arcabouço Fiscal que acaba de ser apresentado pelo novo Governo,em que pese ainda não conhecermos a emenda a ser submetida ao PoderLegislativo, e assim estarmos fazendo a crítica e propondo o debate em cimadas informações gerais publicadas e já anunciadas pelo Governo.Anunciar uma política fiscal, tutelada e balizada pela atual política monetária,tem uma grande probabilidade de fracasso, entendendo por fracasso a nãorealização das metas que acreditamos que o país deveria alçar em termos dedesenvolvimento, e um real desprendimento desta camisa de força da políticamonetária, libertando o país para realizar os investimentos necessários.Ao contrário, infelizmente, mais uma vez, o governo parece estar querendosinalizar e jogar muito mais “para a galera do mercado financeiro”, sem maioresquestionamentos de uma economia hiper financeirizada, quando não umaplataforma neocolonial de exportação de commodities brutas e rendas (nãoprodutivas) astronômicas, em detrimento de seu próprio desenvolvimentosocioeconômico, educultural e socioambiental.Para sistematizar as críticas ao Novo Arcabouço Fiscal, serão apresentadas aseguir, em caráter sumário, algumas proposições estratégicas, em primeirolugar; e na sequência, em segundo lugar, as proposições mais táticas eoperacionais – com algum grau de detalhamento.A Implantação do Conselho Nacional de MacroeconomiaDesta forma, a primeira medida que se necessitaria tomar seria a criação doConselho Nacional de Macroeconomia – CNMacro , uma nova instânciasupraministerial do Governo composta por integrantes, com a participação e arepresentatividade equilibrada/coordenada, de pastas ministeriais como aFazenda, Economia, Trabalho, Desenvolvimento, Indústria, Comércio Exterior,Serviços, e Agricultura – como exemplo de uma composição mais fidedigna ecorrespondente ao desafio – estratégico.O Conselho Monetário Nacional – CMN estaria subordinado à CNMacro, bemcomo o Banco Central estaria subordinado ao CMN.O CNMacro teria o propósito de analisar as condições econômicas e promovero uso de políticas macroeconômicas e estruturais que apoiem o crescimentoeconômico e estimulem o emprego produtivo, mantendo a estabilidademacroeconômica.O propósito seria estabelecer uma estabilidade macroeconômica ao invésde apenas uma estabilidade de preço.O CNMacro centralizaria as experiências e práticas na formulação eimplementação de políticas macroeconômicas para reduzir a pobreza e asdesigualdades, bem como alcançar o desenvolvimento sustentável e inclusivo.Seria responsável pela implantação de políticas e opções de desenvolvimentoeconômico, aprovação do financiamento para o desenvolvimento de grandesprojetos estratégicos nacionais.Atuaria como órgão de fomento para o aumento e potencialização dos recursosfiscais internos; aumento do investimento de impacto social e socioambiental;criação e acesso a veículos, acordos e fundos de financiamento estrutural ereestruturante para a reconstrução do país.Diante de um cenário de flutuação da inflação seriam avaliadas pelo CNMacro,as causas e aplicados remédios mais adequados, em doses complementarescorretas para o combate adequado, que não necessariamente passaria pelaelevação da taxa de juros, como também poderá ser endereçado ao BancoCentral em determinadas condições especiais efetuar a alteração da taxa dejuros.Ao longo dos últimos anos para combater a “memória da inflação” criou-se a“memória dos juros”, cristalizando-a e o suposto correspondente remédio paratodos os problemas macroeconômicos: a taxa de juros como um receituáriogenérico para todas as situações de oscilações inflacionárias.Para uma inflação de demanda ocasionada por alimentos poderia se tomarmedidas na área da agricultura ou desonerar temporariamente taxas deimportações de alimentos e para um segundo caso de inflação de preçosadministrados como óleo e gás, acontecimento do último período, teria seefetuado uma intervenção na Petrobrás para mudar a política de preços.O CNMacro seria soberano na gestão da política macroeconômica e estariasubordinado diretamente à Presidência da República.CNMacro poderia convidar, dependendo dos temas e pautas, representantes dasociedade civil e dos vários setores socioeconômicos para participar dasdiscussões e tomadas das decisões, estratégicas ou de assuntos específicos deinteresse nacional da sociedade brasileira, compartilhando desta forma asresponsabilidades, gerando compromissos, engajamento da sociedade em cimade temas estratégicos para a soberania nacional e o fortalecimento da unidadedo tecido social.Para assegurar a transparência de suas decisões, alguns temas estratégicospoderiam ter suas reuniões transmitidas ao vivo para toda a sociedade brasileiraacompanhar e se engajar, fortalecendo assim a capacidade de realização eaceitação de determinadas medidas no seio social.A Implantação do Orçamento de CapitalObservamos no Novo Arcabouço Fiscal uma iniciativa louvável de se estabelecerum Piso de Investimento, mas com valores muito aquém das demandas enecessidades que o Brasil estaria necessitando para acelerar seudesenvolvimento, recuperar posições no cenário internacional e promover asmelhorias internas necessárias de Bem-estar Social., conforme elencamosanteriormente.Para se compatibilizar um equilíbrio fiscal de longo prazo como um período de10 a 20 anos, com um aumento do investimento público poderia se dividir oorçamento fiscal em duas peças orçamentárias:a) Orçamento ordinário, relacionado às despesas correntes, referentes àsfunções da administração pública;b) Orçamento de capital, relacionado às despesas de capital, gastos para aprodução ou geração de novos bens ou serviços que integrarão opatrimônio público, ou seja, que contribuirão diretamente para a formaçãoou aquisição de um bem de capital.O orçamento ordinário deveria seguir regras pré-estabelecidas e permanecerequilibrado o tempo todo, ou quando superavitário poderia transferir o excedentepara o orçamento de capital.O orçamento de capital poderia estar transitoriamente em desequilíbrio, devendoser ajustado em função das flutuações do nível de demanda agregada, evitandoflutuações maiores nos investimentos privados.Ao se separar em dois Orçamentos, evita-se o processo de contaminação dedois grupos distintos de contas, garantindo total transparência na evolução dascontas ordinárias e das contas de capital de forma independente.Dentro das contas de capital se faria também um acompanhamento específicode todas as iniciativas, programas e projetos que receberem aportes deinvestimentos públicos.Este Orçamento de capital necessitaria ser construído em cima de um ProgramaNacional de Desenvolvimento, tema para um outro documento.Acelerar os investimentos neste momento da história do Brasil quando já sepassou um quarto do século 21 praticamente com crescimento pífio é de extremaurgência, sob pena de se perder o bonde histórico das mudanças que estãoocorrendo rapidamente na economia mundial.Quando as políticas macroeconômicas buscam reduzir a demanda agregada aonível da oferta potencial e não investem de forma adequada, oferecem aoempresariado investidor a perspectiva de estagnação, não o estímulo aocrescimento econômico.A expansão da economia ocorre quando empresários e investidores são levadosa acreditar que a demanda de seus produtos se sustentará em níveis elevados,uma vez que é a expectativa de um nível de procura superior à capacidadeprodutiva que estimula empresários a investir em nova capacidade e expansão.O desafio com relação a despertar os empresários e investidores para novosinvestimentos, é conseguir um ponto de equilíbrio entre não cair em uma políticaconservadora em excesso, para quem o crescimento é limitado pelo produtopotencial presente e, por outro lado, a irresponsabilidade do estímulo ilimitado àdemanda agregada, que pode gerar o risco de uma inflação descontrolada.A trajetória dos investimentos públicos, portanto, deveria ser estabelecida deacordo com a necessidade de sustentar a demanda agregada.A combinação de uma redução da taxa de juros real com um maior crescimentoeconômico promovido por um orçamento de capital mais vitaminado, permitiriatambém uma redução substantiva na relação dívida pública/PIB.Mas percebam que estas medidas necessitam de uma orquestração entre as 5políticas da macroeconomia, não se pode ter neste tabuleiro de xadrez o BancoCentral jogando do lado adversário, mantendo a taxa de juros mais elevada domundo.Desta forma tem provocado o aperto de liquidez e elevado o nível deendividamento das empresas privadas e pessoas físicas.Fica a avaliação que o BC, neste momento age, através da manutenção deelevada taxa de juros, como um guardião e protetor dos banqueiros criando umcolchão ou reserva de rentabilidade adicional para o segmento bancário financeiro com receio de uma nova crise mundial do sistema financeiro.Mesmo com este presente que estão recebendo, caso ocorra uma crise, vai serproposto que o governo subsidie e pague as contas da suposta crise, conformeocorreu em 2008 e na crise da COVID, a partir de 2020.Uma redução no superávit primário a médio/longo prazo deveria ser usado paraaumentar o investimento público, em setores já relacionados anteriormente quecarecem em caráter de urgência de serem irrigados com altos volumes deinvestimentos.O aumento no investimento público gera externalidades positivas para o setorprivado, uma vez que acarreta um aumento nos lucros do setor privado que, porsua vez, acaba por estimular uma elevação nos gastos de investimento dasempresas.Ao mesmo tempo, gera um aumento na demanda agregada que resulta doconhecido multiplicador de gastos do governo.Assim, o governo, ao realizar investimentos, estimula a demanda agregada,reduz as incertezas de realização de lucros empresariais e anima asexpectativas do setor privado empreendedor.Estes investimentos poderão se viabilizar através de vários veículos e fontes quepoderiam ser buscadas para esta finalidade, desde a emissão de moeda comoestão fazendo vários países.Poderia se ter o desenvolvimento de estruturas de Projetos de Investimentos (‘Project Finance”) com garantias do governo.Aplicar modelos de Projetos “Built to suit” ,PPPs , PPIs ou concessões.Efetuar a, emissão de Títulos Verdes, constituição da Câmara de crédito decarbono para captação de créditos.Ou captação através de Fundos de Investimentos com financiamentos de longoprazo onde o fluxo de pagamento se alongaria em até 20 anos e dezenas deoutros instrumentos que estão disponíveis para serem utilizados, inclusive osFundos do Clima .Uma outra recomendação seria fortalecer o Sistema Nacional de Fomento (SNF), reduzindo a dependência no setor privado dos bancos para este tipo dePrograma .O SNF é integrado pelos bancos públicos federais, bancos de desenvolvimentocontrolados por Unidades da Federação, agências de fomento, bancoscomerciais estaduais com carteira de desenvolvimento, bancos cooperativos,além da Finep e do Sebrae.O SNF passaria a ter um reforço institucional e de investimentos para que suaatuação viabilizasse o atendimento às necessidades de diversos setores esegmentos: micro e pequenas empresas (MPEs); municípios; setor rural eagroindustrial; tecnologia e inovação; estruturação de projetos; saneamentobásico, entre muitos outrosPor fim, recomenda-se a criação de uma Agência de Gestão, Monitoramento,Controle e Compliance de Projetos e Programas do Governo com uma atuaçãoque se inicia já na primeira etapa de Estudos de Viabilidade Econômica eFinanceira , passando pelo acompanhamento do desenvolvimento de projetos eprogramas, se estendendo este acompanhamento nas etapas de execução eoperação.O objetivo desta Agência seria assegurar a correta alocação e aplicação dosrecursos, utilização e transparência dos recursos e evitar que projetos eprogramas sem viabilidade econômico-financeira social e ambiental serealizassem, dando credibilidade à implantação de um novo Programa Nacionalde Desenvolvimento, conforme já dito, tema para um próximo documento.Esta Agência poderia criar uma galeria de projetos padrões com comprovadaviabilidade econômico-financeira, com alta capacidade de replicação e impactona economia, agilizando os processos de implantação e mudança na economia.As metas de banda do Resultado primário e banda de crescimento dasdespesas versus a Meta de GastosA proposta do novo arcabouço fiscal inovou ao modificar o atual teto de gastose propor uma banda com crescimento real da despesa primária entre 0,6% a2,5% a.a. pois o teto de gastos atual praticamente nunca foi cumprido em seusanos de vigência e esta banda vem para justificar possíveis desvios nos gastose, de certa forma, formaliza em uma nova regra, baseada no que de fato ocorreuao longo destes anos de vigência do teto de gastos – desde a “Ponte para oFuturo” do governo Temer.Quanto à questão da regra de estabelecimento da meta de Resultado Primário,se repete a mesma política de décadas apenas inovando pontualmente e dandoum horizonte de planejamento às metas de resultado primário para os anos de2024, 2025 e 2026, acreditando que este fato poderá gerar credibilidade econfiança ao mercado.Vejam que a lógica sempre toma como ponto de referência responder aomercado, mas que mercado? O mercado financeiro que não tem apetite parainvestimentos produtivos e sim das rendas de juros sobre aplicações financeiras.Esta questão da meta de resultado primário tem sua origem na Lei deResponsabilidade Fiscal (LRF), que começou a ser praticada em 2001 edetermina ao governo cortar despesas ou aumentar receitas caso o cenáriomacroeconômico indique que não será possível cumprir a meta de resultadoprimário.Esta lei de responsabilidade fiscal nasceu de uma recomendação e acordo doFundo Monetário Internacional para garantir a realização de superávit financeironecessário para controlar a dívida pública e evitar o default de pagamento.Se efetuarmos um balanço, esta regra não trouxe melhorias para a economianestes anos todos que foi aplicada e funcionou na realidade como um dosinstrumentos para criar uma camisa de força na economia brasileira e impedirseu crescimento e investimentos públicos que se fazem como condiçãoobrigatória para o país decolar.A novidade são os tetos que limitam a expansão das despesas de formadiscriminatórias colocando uma trava de aumento caso as receitas cresçam empatamares superiores e limita a um crescimento de despesas até o limite de2,5%, reduzindo o caráter fiscal pró-cíclico da atual regra em vigência contandocomo fator positivo da nova regra proposta.O economista Nelson Barbosa expressou e tratou esta questão de formaexemplar e o autor corrobora com suas análises, desta forma tomando aliberdade de transcrever trechos em defesa do estabelecimento de uma Meta deGastos contrapondo à proposta apresentada.O economista esclareceu, em artigo publicado na mídia (em 28/01/22), osproblemas da meta de resultado primário e que seguem em um breve resumodos seus pontos de vista, abaixo.A regra de meta de Resultado Primário não resolve o problema da execuçãolinear e uniforme do Orçamento ao longo do ano pois como se desconhece comoas receitas irão se comportar, o governo tem que ajustar a despesa à evoluçãoda receita ao longo do ano e isso gera uma não linearidade na execuçãoorçamentária.O ano fiscal sempre se inicia com contingenciamento em função da incerteza dareceita e os gastos aprovados não seguem uma execução uniforme e linear,provocando uma execução com descontinuidades do fluxo de despesasprovocando a aplicação incorreta e ineficiente dos recursos na linha do tempode execução do orçamento.Normalmente no final de ano os ministérios se apressam para executar asdotações orçamentárias antes da virada do ano.O economista Nelson Barbosa qualificou este problema de “efeito sanfona” naexecução orçamentária.Um segundo problema refere-se ao orçamento superdimensionado.Para explicação deste problema segue a citação de um trecho do artigo citado:“Quando o governo adota meta de resultado primário, é racional que a equipeeconômica conservadoramente contingencie recursos no início do ano, paraeventual liberação no final do ano, como eu descrevi na seção anterior. Agoracoloque-se no lugar do ordenador de despesa fora da equipe econômica.Se você sabe que os técnicos do Ministério da Economia cortarão seu orçamentoem 10% no início do ano, o que você faz? Você pede um orçamento 11,11%acima do que você precisa. Em outras palavras, se você precisa de R$ 100, vocêpede R$ 111,11 para que, após o corte de 10%, você fique com os R$ 100 querealmente precisa.O resultado da expectativa de contingenciamento é o incentivo para que TODOSos Ministérios peçam mais recursos do que eles realmente precisam, o que porsua vez gera um clima de desconfiança entre a equipe econômica e o restantedo governo, com os técnicos da economia tentando achar os excessos em cadapedido de recurso dos demais ministérios.Todos os envolvidos no processo se comportam racionalmente, mas o resultadopara o país é um orçamento fictício, com grande desperdício de horas detrabalho na avaliação e execução de programas. Há uma perda de eficiência dogoverno e crises políticas recorrentes na “Esplanada dos Ministérios”.No passado, quando emendas parlamentares eram contingenciadas, a meta deresultado primário também gerava crises recorrentes entre os poderes Executivoe Legislativo. Agora isso acabou, sob o preço de um orçamento secreto. Asemendas impositivas, sejam elas individuais, de bancada ou de relator, sãoconsequência direta do erro da LRF em criar metas de resultado primário”.O terceiro problema do novo Arcabouço Fiscal é que ao não fixar uma meta degastos, continua permitindo dentro de uma banda limite de 2,5% que oorçamento de despesas sofra alterações ao longo do ano e ao não se ter umaMeta de Gastos não confere ao orçamento de despesas a garantia de um fluxonormal de execução , mantendo o efeito sanfona .Ainda segundo o economista Nelson Barbosa:“Quando o governo tem meta de resultado, teoricamente você pode ampliar adespesa desde que você também apresente um aumento de receita que afinancie.A meta de resultado primário estimula a classe política a procurar fontesorçamentárias para financiar os programas que ela acha necessários sem alterara meta de resultado primário.E para piorar o quadro, como os programas podem ser contingenciados pelaequipe econômica, a classe política também procura vincular as novas receitasà aplicação dos recursos nos programas por ela desejados.O resultado do processo é a concentração da discussão orçamentária noaumento e vinculação de receita em vez de no controle e eficiência do gasto. Porexemplo: quer aumentar o recurso para a saúde? Vamos aumentar a tributaçãosobre cigarros e bebidas e direcionar a arrecadação extra somente para o SUS.Quer aumentar a verba dos esportes e cultura? Vamos legalizar os jogos de azare canalizar o ganho de receita para incentivos ao esporte e à cultura. Querdesonerar ou subsidiar o emprego? Recrie a CPMF e direcione a arrecadaçãopara a desoneração da folha de pagamento.A lista de ideias para “taxar-vincular-gastar” é grande, cada uma delas comméritos e fragilidades distintas, mas todas elas têm um elemento comum: quandoa equipe econômica diz que o resultado primário não pode ser alterado, o restodo governo e o Congresso respondem buscando aumento de receita para pagaro aumento de despesa que consideram meritório, sem alterar o resultadoprimário”.Posto os problemas da proposta do novo Arcabouço fiscal com relação a bandade Resultado Primário e a banda de despesas a proposta alternativa seriaabandonar a meta de banda de Resultado primário e adotar uma Meta de Gastosque traria os seguintes benefícios conforme o economista :a) “A meta de gasto torna a política fiscal anticíclica. Quando a economiavai bem, a receita vem acima do esperado, o gasto se mantém na metainicial e o resultado fiscal sobe. Quando a economia vai mal o opostoacontece e, portanto, o déficit público se torna anticíclico: sobe narecessão e cai na expansão.b) Uma meta de gasto acaba com contingenciamento e orçamentosanfona. O que o Congresso aprovar é o que o governo tem paragastar ao longo do ano. Não é necessário cortar recursos em janeiropara liberar em dezembro. Como o resultado se torna a variável deajuste, o orçamento pode ser impositivo e previsível, no sentido de quevale o decidido pelo Congresso, sem contingenciamento pela equipeeconômica.c) Com meta de gasto não há contingenciamento e, portanto, não hánecessidade de que os diversos órgãos de governo peçam recursosalém do necessário para compensar a “tesourada” da equipeeconômica. Com meta de gasto o debate fica mais claro e objetivo,supostamente sem orçamento superdimensionado e com menosdesconfiança mútua entre os membros do governo.d) Por fim, uma meta de gasto foca o debate… no gasto! Pode e devehaver debate sobre criação de receita, mas quando o limite é de gasto,a principal discussão do orçamento é avaliar o custo e benefício decada tipo de despesa pública, como é padrão em paísesdesenvolvidos.”Novas regras de governança do Sistema Econômico BrasileiroEm conjunto com a implantação do CNMacro seria redefinido regrasimportantes de governança da economia sendo que as primeiras medidasestariam associadas a:a) A definição da taxa de juros e suas regras de mudança passa a serprerrogativa do CNMacro com suporte técnico operacional do CMN eBanco Central;b) O estabelecimento da meta de inflação passa a ser prerrogativa doCNMacro estendendo esta meta para um intervalo de 2 anos;,mitigando o risco de tomada de decisões precipitadas em função demudanças conjunturais e pontuais de preço e por conseguinte doíndice de inflaçãoc) Ampliação das regras de quarentena para 24 meses para profissionaisparticipantes de órgão de decisão econômica como CNMacro, CMN eBanco CentralNova regra para a Taxa de juros: Taxa de juros da dívida inferior à Taxa deCrescimentoPara complementar as novas medidas fiscais e mudança de governança damacroeconomia brasileira, uma das primeiras medidas que o CNMacro deveriatomar ao ser formalizado seria a nova regra da taxa de juros.O CNMacro anunciaria que a taxa básica de juros, a partir da data estabelecida,seria sempre fixada abaixo da taxa nominal de crescimento do PIB.Esta medida defendida pelo economista Lara Rezende e outros especialistaspermitiria que a relação dívida/PIB decrescesse a partir do momento em que odéficit primário for eliminado, sem necessidade de qualquer aumento da cargatributária.Esta medida também viabilizaria a implantação do Orçamento de Capital juntocom um Programa Nacional de Desenvolvimento pois torna possível elevar oendividamento público pois a correção do estoque da dívida será corrigido emum patamar sustentável com relação ao crescimento do PIB.A encruzilhada atual do Brasil: a construção de um novo Programa deDesenvolvimento Nacional ou a conversão definitiva do Estado Brasileirocomo um mero instrumento do Mercado?Numa economia cuja hegemonia pertence ao setor financeiro, o Estadoconverte-se num instrumento institucional para organizar os espaços eoportunidades econômicas necessários ao desenvolvimento da acumulaçãorentista-patrimonial.Dará prioridade à promoção dos interesses do setor bancário-financeiro , mesmoque em detrimento das necessidades sociais e do desenvolvimento nacional.O Estado brasileiro foi se transformando em salvaguarda desta dinâmicaestrutural imposta pelos agentes financeiros, tanto em termos do entreguismodas riquezas e das empresas nacionais estratégicas, envolvendo inclusive aspolíticas de cunho social, como também os mecanismos de sobrevivência daprópria dívida pública do país.Esta dinâmica estrutural, consolidada nas últimas décadas, tem garantido oscaminhos para a financeirização da condução macroeconômica brasileira,através destes agentes que passaram a determinar profundamente as relaçõespolíticas e socioeconômicas nacionais, implicando fortemente, portanto, naperda, em diferentes medidas, da autonomia do Estado.A aprovação da independência do Banco Central reforçou o poder quaseabsoluto de intervenção e comando destes agentes financeiros que possuemforte influência e controle prático sobre as decisões do Banco Central, o qualdesta forma se tornou independente do Governo constituído, mas mantém seuvínculo umbilical com o mercado financeiro e os seus grandes agentes.Para exemplificar, conforme extraído do portal O Globo, 01/07/2020, osprivilégios do mercado financeiro, vale lembrar que são dados referentes àmarço/2020, no início da crise da COVID-19, quando os Bancos receberam R$1,2 trilhão do Banco Central, mas só 4% disso virou aumento de empréstimospara pessoas e empresas, sendo esta a justificativa original para a distribuiçãodeste pacote de bondades para os bancos.“Apesar dos bancos terem recebido do Banco Central R$ 1,2 trilhões adicionaispara emprestar a pessoas e empresas, de março a maio eles apenasaumentaram as suas concessões de empréstimos em R$ 50,4 bilhões, emrelação ao mesmo período de 2019.Ou seja, apesar de todo este volume adicional de recursos entregue pelo BancoCentral, e apesar da crescente necessidade por mais financiamentos em umcenário de forte crise, nestes 3 meses os bancos mantiveram praticamente opatamar de financiamentos do ano passado, com um aumento de apenas 5,4%.Diversos foram os veículos que noticiaram a dificuldade das pequenas e médiasempresas de conseguir acessar linhas de crédito para tentar evitar o fechamentodas portas e demissão de funcionários e como todos sabem, que vivenciaram acrise , esta ajuda seria de fundamental importância para criar uma sustentaçãona economia.Ao invés de obrigar os bancos a disponibilizar os recursos para quem precisa, oBanco Central ainda os estimula a dificultar os empréstimos, na medida em queacata o depósito voluntário da sobra de caixa dos bancos e os remuneradiariamente, às custas da chamada dívida pública, cuja média de taxa de jurostem se mantido altíssima (cerca de 9% ao ano, em média, conforme o RelatórioMensal da Dívida do Tesouro Nacional).Ainda no sentido de privilegiar os bancos, o governo chegou a criar o FundoGarantidor de Operações (FGO), para destinar recursos públicos no sentido degarantir riscos das operações de crédito dos bancos. “Dessa forma, os eventuais riscos de empréstimos foram cobertos pelo TesouroNacional: uma verdadeira benesse com dinheiro público.Vale destacar também que se comparamos o Brasil com demais países domundo, onde o funcionamento do mercado financeiro é muito mais regulado ese submete às regras e normas estabelecidas pelo Estado Nacional, no Brasil étotalmente desregulado e se transformou em um paraíso dos rentistas com altaslucratividades, com a maior taxa de juros mundial histórica nos últimos anos.O Banco Central dita a macroeconomia em cima de um tripé monolítico naprática, com a taxa de juros e as medidas cada vez mais liberalizantes domercado financeiro desde os anos 90.O Novo Arcabouço Fiscal, recém-apresentado, optou por não ousar sair destequadrado e não tem o propósito de romper esta camisa de força, de vencê-la esuperar os seus paradigmas ultrapassados (mundialmente falando), pois este éo pano de fundo que necessita ser transformado.A sociedade brasileira e a própria comunidade internacional, que tem plenaconsciência passar pelo Brasil o futuro da Amazônia, das Democracias (ante arecente onda de autocratas fascistas globais) e o próprio futuro do Planeta.Então, espera-se muito mais coragem e disposição para mudanças de fato, doque meros paliativos que, se sabe, pela experiência histórica recenteamplamente analisada e avaliada, manterão o país patinando sem o crescimentoe o correspondente desenvolvimento socioambiental, econômico, tecnológico ecultural, estratégico, que necessita.Vamos optar conscientemente, de novo, pelo fracasso dos melhores anseios epotencialidades concretas nacionais e globais?Autor: Jose Luiz de Cerqueira Cesar – Engenheiro- Com ênfase de atuação no mercado financeiro nos últimos 45 anos, iniciando sua atuação no Banco Itaú, com passagem pelo Banco de Nordeste ( BNB), Superintendência da Tecban –Banco 24 Horas, Diretor do ex Unibanco, diretor de BMF- atual B3, Vice-presidência do Banco do Brasil , atuação emConselhos de Empresas, atuando ainda ao longo de dez anos em consultoria financeira e de controladoria nareestruturação de empresas de segmentos diversos, Projetos de Investimentos, processos de aquisições e fusões eatualmente com atuação em processos de start up de novos negócios. Participa atualmente no Movimento Engenhariapela Democracia – ENGD
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