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Liberdade de imprensa na Rússia, “a pior desde a Guerra Fria”

Liberdade de imprensa na Rússia, “a pior desde a Guerra Fria”

Prisão de Evan Gershkovich (foto), correspondente na Rússia do The Wall Street Journal, é condenada por defensores da liberdade de expressão em vários países do mundo (Foto: Reprodução/Instagram@evangershkovich)

A detenção de um jornalista americano na Rússia não apenas enviou um alerta severo aos repórteres estrangeiros no país, mas é um sinal do desejo do Kremlin de reprimir qualquer dissidência no estado, alertaram defensores da liberdade de expressão

Por ED HOLT

BRATISLAVA – A detenção de um jornalista americano na Rússia não apenas enviou um alerta severo aos repórteres estrangeiros no país, mas é um sinal do desejo do Kremlin de reprimir qualquer dissidência no estado, alertaram defensores da liberdade de expressão.

A prisão em 30 de março do jornalista do Wall Street Journal Evan Gershkovich indica que o regime russo pode estar reforçando seu já rígido controle de informações e ampliando a repressão aos críticos, segundo especialistas ouvidos pela IPS de Bratislava, capital da Eslováquia.

“A magnitude desta medida é enorme. Não é apenas a primeira vez desde a Guerra Fria que um jornalista americano é detido, mas acusações muito sérias foram feitas contra ele. É um grande passo”, disse Karol Luczka, chefe de advocacia política do International Press Institute (IPI).

A repressão às vozes independentes, disse à IPS, “tem sido a política do Kremlin há algum tempo e parece que cada vez mais pessoas estão sendo atacadas”.

Gershkovich, cidadão americano, foi preso em Yekaterinburg sob a acusação de espionagem. Ele está detido na prisão de Lefortovo, em Moscou, aguardando julgamento e pode pegar até 20 anos de prisão por suposta espionagem.

Suas reportagens mais recentes incluíam histórias sobre os problemas que as forças russas enfrentavam em seu esforço de guerra, bem como sobre como as sanções ocidentais estavam prejudicando a economia russa.

O Wall Street Journal negou as acusações contra seu repórter e a prisão foi condenada por líderes ocidentais e defensores dos direitos humanos.

Alguns veem a detenção como uma manobra política do Kremlin e acreditam que Gershkovich foi mantido para uso futuro como parte de uma troca de prisioneiros com os Estados Unidos.

Mas os vigilantes da imprensa dizem que, mesmo que seja, a prisão também envia uma mensagem muito clara aos jornalistas que não seguem a linha do Kremlin.

“Não tenho dúvidas de que a detenção é uma questão política. Quando ouvi sobre as acusações contra Evan, meu primeiro pensamento foi: ‘Que russo de destaque os americanos têm em uma de suas prisões agora’, disse Gulnoza Said, coordenador do Programa Europa e Ásia Central do Comitê para o Proteção aos Jornalistas (CPJ).

Said disse à IPS que “correspondentes estrangeiros oferecem uma visão rara da realidade russa para uma audiência mundial”.

“A prisão envia uma mensagem a todos os jornalistas estrangeiros de que eles não são bem-vindos na Rússia e que podem ser acusados de um crime a qualquer momento. A partir de agora, está claro que a situação para eles é imprevisível e insegura”, acrescentou.

Você pode ler a versão em inglês deste artigo aqui.

A mídia independente na Rússia já sofria repressão antes da invasão em grande escala da Ucrânia, que começou em fevereiro de 2022, mas aumentou desde então.

O governo de Vladimir Putin bloqueou sites online de mídia marcados como anti-Kremlin, bem como plataformas de mídia social, para impedir que as pessoas acessem informações críticas sobre a guerra, enquanto a censura militar também foi introduzida com novas leis draconianas ” do Exército.

Isso levou alguns veículos a fechar preventivamente, em vez de arriscar que seus funcionários fossem presos, enquanto outros foram forçados a reduzir drasticamente seus funcionários ou realocar suas redações fora do país, operando em exílio de fato.

Mas até agora, a mídia estrangeira não foi afetada por essa repressão.

No início da guerra, muitos levaram seus correspondentes para fora do país por questões de segurança. Mas alguns, como Gershkovich, retornaram e puderam relatar a guerra com uma liberdade comparativamente muito maior do que seus pares russos.

É por isso que a prisão de Gershkovich é tão preocupante para o futuro do jornalismo independente no atual regime russo, disse Jeanne Cavelier, chefe da seção da Europa Oriental e Ásia Central da Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

“Deter um jornalista estrangeiro sob acusações tão graves é um novo passo crítico na guerra de informação de Putin. O objetivo é intimidar todos os jornalistas ocidentais remanescentes em solo russo que se atrevem a fazer reportagens in loco e investigar questões relacionadas à guerra contra a Ucrânia”, disse à IPS.

Cavalier analisou que essa prisão “é um sinal de que eles não estão relativamente mais protegidos do que seus colegas russos. Como sempre, (a prisão é) para semear o medo e silenciá-los.”

“Dezenas de meios de comunicação estrangeiros já deixaram a Rússia desde março de 2022, assim como centenas de jornalistas independentes locais. Esse golpe pode piorar a situação e reduzir ainda mais as fontes de informações confiáveis da Rússia”, analisa.

Outros especialistas acreditam que a prisão pode indicar que o Kremlin está caminhando para uma meta de controle quase total da informação na Rússia.

Ainda está longe do tipo de censura que existia na antiga União Soviética, a URSS, disse Lucka, do IPI. “Mas Putin e o regime governante russo há muito dizem que o sistema de censura da URSS é um modelo para eles. É assim que funciona na Rússia e como o governo quer que funcione. É lamentável, mas é a realidade”, acrescentou.

“Com o tempo, poderia ser como a Guerra Fria, quando todas as informações vindas da Rússia eram estritamente controladas”, disse Said do CPJ.

Enquanto isso, alguns acreditam que a prisão também é um sinal para a população em geral.

Nos últimos anos, o Kremlin tentou silenciar a oposição, tanto em questões políticas quanto em outras áreas da sociedade. Enquanto críticos barulhentos como o líder da oposição Alexei Navalny acabaram na prisão, muitas organizações da sociedade civil, incluindo organizações de direitos humanos, nacionais e estrangeiras, foram fechadas pelas autoridades.

Esta repressão se intensificou desde o início da guerra, segundo os russos que falaram à IPS, especialmente depois da introdução de uma legislação que criminaliza as críticas à atividade militar.

“É uma loucura. Há escassez por causa da guerra, há problemas de abastecimento e vemos isso funcionando o tempo todo. Podemos falar da escassez o quanto quisermos no trabalho, mas não podemos dizer qual é a causa, a guerra, porque o simples uso da palavra guerra pode levar à prisão por anos”, disse à IPS um funcionário do setor público em Moscou que pediu para ser identificado apenas como Ivan.

Ele acrescentou que conhecia muitas pessoas que eram contra a guerra, mas tinham medo de expressar até mesmo a menor oposição.

“Eles sabem que é errado, mas não podem falar sobre isso. Há muita censura. Você pode ser preso por traição apenas por mencionar seus efeitos negativos na economia”, disse ele.

Nesse contexto, a detenção de Gershkovich provavelmente reforçará o medo entre os russos comuns que não apóiam a guerra ou o governo e os impede de falar, dizem os defensores dos direitos humanos.

“É difícil separar a repressão a todas as liberdades de mídia da repressão a todas as vozes independentes – elas andam de mãos dadas”, disse Rachel Denber, vice-diretora da Divisão da Europa e Ásia Central da Human Rights Watch .

Quando as autoridades russas “detêm um jornalista de alto perfil por razões claramente falsas”, disse à IPS, “não importa qual seja o real objetivo da detenção, certamente estão plenamente conscientes da mensagem assustadora que transmitem ao público em geral”. (T: MF / ED: EG)

Artigo publicado originalmente na IPS.

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