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Os que ficam para trás

Os que ficam para trás

Ao ler a sinopse é difícil considerar que o filme Os Rejeitados vai mais além de um conto de natal à moda norte-americana, repleto dos clichês de costume, com sua história que se passa na virada dos anos 1970/71, numa high school esnobe da Nova Inglaterra. No internato Barton, escola preparatória para a universidade, estudam garotos filhos da detestável – como o filme enfatiza – elite mais rica (e mais arrogante) do país, naquela época traumatizada pela derrota no Vietnã e sitiada por forte crise financeira. Lá, um professor frustrado, mal humorado, mas apaixonado pela sua profissão e por História Antiga castiga seus alunos nas aulas de filosofia, com Marco Aurélio em Meditações – O Diário do Imperador Estoico.

O título original dessa comédia dramática como foi rotulado, The Holdovers pode ser traduzido também por ‘os remanescentes’ ou ‘os resquícios’ ou ainda por ‘os esquecidos’. Os restos humanos. É um drama, bem mais que uma comédia, esse oitavo longa-metragem do diretor americano de origem grega Alexander Payne, com a sua habitual direção eficiente e limpa, e autor de uma filmografia sempre com laivos presentes de crítica social. O roteiro, original e maduro, é uma construção inteligente de David Hemingson, e os três atores que interpretam os protagonistas são envolventes. Paul Giamatti, Da’Vine Joy Randolph e Dominic Sessa garantem sedução ao espectador durante as duas horas e 45 minutos de duração do filme, versão cativante do universo daqueles que são rejeitados pelos usos e costumes das sociedades. Não é exatamente um lindo conto natalino.

A atriz Da’Vine Joy Randolph foi Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante da temporada do ano passado, mas é Giamatti, também premiado nesse certame como Melhor Ator, um dos mais competentes intérpretes do cinema americano de hoje, quem rouba todas as cenas com sua carga de empatia natural. Sem falso glamour e sem uma beleza física de vitrine, Giamatti atrai e seduz vestindo qualquer personagem. O filme Sideways – Entre umas e outras, com ele brilhando, é um desses.

Em 2023, quando abiscoitou seu terceiro Globo de Ouro com The Holdovers, PaulGiamatti dedicou o filme aos profissionais do magistério. Detalhe: seus pais foram professores universitários.

O terceiro vértice dessa história é o ator revelação que estreia, Dominique Sessa, de 22 anos, saudado pela crítica como o “novo Dustin Hoffman”. A química estabelecida por Giamatti, o professor, e ele, o aprendiz, ambos frustrados com suas perdas, é bastante especial.

Com esse time da pesada, a trama que se desenvolve é esta: os três personagens principais são deixados para trás e rejeitados por diversos motivos durante um período de festas natalinas. Acabam confinados na escola deserta e terminam se aproximando uns dos outros de modo a alavancar novos rumos para suas vidas desalentadas.

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O fracasso de cada um deles é sentido com a rejeição sofrida e infligida pelas voltas do destino, pela própria família e pela morte. Um professor decepcionado, Paul Hunman (Giamatti), um aluno arrogante porque inseguro, Angus Tully (Sessa), e Mary Lamb (Da’Vine Joy), a cozinheira negra da escola, que perdeu o filho único morto no Vietnã. O rapaz se apresentara para a guerra para garantir, no seu retorno aos Estados Unidos, a gratuidade do curso universitário que desejava fazer, o qual, como mandava a lei, era um presente aos que voltavam vivos.

É o personagem da cozinheira Mary Lamb, na sua simplicidade, que será o elo de aproximação afetiva entre o intelectual (o professor) e o aluno pretensioso.

Esse roteiro foi renovado por David Hemingson a partir de uma história filmada pelo francês Marcel Pagnol – o longa Merlusse, realizado nos anos 30 com grande sucesso – que a adaptou para o liceu Barton.

Mesmo que seja, às vezes, um conto embalado por canções natalinas insistentes, Os Rejeitados foi um sucesso no Festival de Toronto do ano passado e desembarcou na noite de festa do Globo de Ouro como um patinho feio pretendendo competir com pesos pesados e orçamentos milionários da temporada que o ofuscavam como Oppenheimer, Maestro, Pobres Criaturas, até Barbie. Mas seus protagonistas foram recebidos pela unanimidade da crítica como “personagens adoráveis”; pelo menos após eles experimentarem a mudança na dinâmica de suas relações, é claro.

A bondade e a solidariedade que existem, dizia Pagnol, adormecidos no coração do ser humano, podem – quem sabe? – afluir a qualquer instante, em condições especiais e, em geral, adversas. Pois esse é o recado de Os Rejeitados. Um filme, espécie de oásis muito bem vindo em uma época histórica de tragédias, guerras, competição desenfreada, de corridas alucinadas pela conquista de poder, de cinismo e ceticismo geral, como, infelizmente, está se desenhando o nosso tempo.

Mas o que chama a atenção é que esse resquício de humanidade vindo à superfície da situação dramática de Os rejeitados é, no fim das contas, responsabilidade e obra do personagem da cozinheira negra Mary Lamb que perdeu o filho porque ele precisava ir para a guerra para voltar e poder fazer, gratuitamente, o seu curso universitário quando (e se) retornasse.

*Os Rejeitados está na Claro TV+

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